quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Be-a-bá do Tribal

 Resolvi dar uma revisada nesse texto e postá-lo novamente! Às que estão começando a estudar agora, o be-a-bá do Tribal! O que são todos esses gêneros dentro de um gênero que ainda é tão novo e desconhecido? Vamos lá!

Com tantos estilos e rótulos é bem fácil confundir-se com as nomenclaturas no tribal. Por isso, coloco aqui os principais nomes que encontramos:


*** Tribal - Genérico, assim sem nenhuma especificação, geralmente faz referência ao Tribal Fusion ou ATS® versus a Dança do Ventre, mas também pode significar uma dessas duas danças distintas:


1) Danças regionais típicas de diversas partes do mundo, o que é um problema em si, pois na visão ocidental em geral, são consideradas “tribos” apenas as populações não-brancas ou de povos originários.


2) O estilo tribal "original" feito pela Jamila Salimpour e sua trupe Bal Anat nos anos 60, na Califórnia. Caracterizava-se por diversas danças árabes tradicionais misturadas em um só show. Trabalho em grupo e solo, uso de snujs, uso de coreografia e danças folclóricas com um "tchan". Porém, deve-se observar que esse estilo de "tribal" demorou para ser chamado assim na época. De qualquer forma, foi o estilo que deu início ao movimento tribal que temos hoje em dia, pois Jamila deu aulas para Masha Archer, que deu aulas para Carolena Nericcio, que criou o ATS®.


*** American Tribal Style® ou ATS®, agora renomeado de FCBD Style (FatChance BellyDance Style)


O ATS® nasceu no final dos anos 80 em São Francisco, CA. Quando a trupe de Masha Archer, chamada "San Francisco Classic Dance Troupe" se desfez, Carolena começou a dar aulas para que tivesse parceiras com quem dançar. Suas aulas tornaram-se populares entre as pessoas mais alternativas que queriam fazer dança do ventre mas não se encaixavam nos padrões estéticos da dança na época. Da sementinha deixada por Masha, Carolena continuou a plantação, e criou o estilo que veio a ser chamado de ATS®. Segundo ela, o "american" do título deixava claro que era uma criação americana, e portanto não oriental, e o "Tribal"descrevia a sensação estética da dança, com mulheres dançando juntas, em tribo, e com uma mistura de trajes autênticos de diversas partes do mundo. O ATS® é um estilo de improvisação coordenada em grupo em que, com base em um repertório comum a todas as bailarinas do estilo, cria-se uma dança improvisada por meio de sinais, chamados de "cues". Para dançar ATS® precisa-se no mínimo de duas pessoas, e o repertório de movimentos vem principalmente da dança do ventre, mas também tem forte influência do flamenco nos braços e postura, e pitadas de danças folclóricas do Oriente Médio e danças clássicas indianas. O principal exponente do ATS® é o grupo da própria Carolena, chamado FatChance BellyDance®, ou abreviado FCBD®. Para mais informações, acesse o site do FCBD.


***ITS - Improvised Tribal Style (ou estilo tribal de improvisação)



O ITS também é um derivado do ATS®, e indica simplesmente que um grupo utiliza o sistema de improvisação coordenada em grupo do ATS®, porém com repertório de movimentos que vai além, ou até mesmo em direções diferentes do utilizado no ATS®. Mesmo sistema de improvisação, repertório de movimentos diferente. Um dos principais exemplos que conheço de ITS é o grupo californiano "Unmata". Elas além de coreografia, trabalham o sistema de improvisação coordenada em grupo por meio de combos. Um outro exemplo de ITS mais novo, é o formato Datura, da Rachel Brice, que apesar de não usar a nomenclatura de ITS por conta de toda polêmica em torno do uso do nome “tribal”, é exatamente o que é! 


*** Tribal Fusion -


Esse estilo foi o principal responsável pela propagação mundial do tribal. Ele surgiu quando bailarinas do ATS® foram saindo para criar suas próprias estilizações e acrescentar ainda mais fusões ao caldeirão de influências. Não existe uma ordem certa de quem iniciou esse movimento, pois na época não havia nem pretensão e nem consciência de que isso tomaria proporções tão grandes. Apenas aconteceu que, algumas bailarinas/alunas de Carolena, quiseram se aventurar em suas próprias experiências, dando vazão à criatividade e fazendo uma fusão em cima da fusão. Daí o nome "Tribal Fusion": é o "tribal" do ATS® acrescido de fusões do que a imaginação permitir, seja de origem oriental ou ocidental, antiga ou moderna. Algumas das bailarinas apontadas como pioneiras do Tribal Fusion e que estavam na cena desde o começo foram Lady Fred, Jill Parker, Rachel Brice e Heather Stants, entre outras. A cena acontecia quase que exclusivamente na região da baía de São Francisco, CA. Como o Tribal Fusion não tinha um formato específico como o ATS®, bailarinas solo surgiram, até que o grupo internacional BellyDance Superstars lançou o estilo para o mundo, e as bailarinas do grupo, como Rachel Brice, Sharon Kihara e Mardi Love viraram referência instantânea do estilo. 


Do Tribal Fusion, surgiram e ainda surgem muitos sub-gêneros como o Dark Fusion, praticado pela Ariellah, o Tribal Brasil, praticado por várias bailarinas brasileiras que misturam ao Tribal Fusion influências de danças regionais brasileiras, como Kilma Farias, Samra Hanan e Cia Shaman, o Tribal Gótico, e assim por diante. Muitas bailarinas criam um nome para seu estilo pessoal, daí vão se criando cada vez mais sub-gêneros... Mas o importante é saber que todos eles vêm da mesma raiz, e são apenas mais um pequeno desdobramento da grande e constante evolução que é o estilo!


quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Por um Estilo Tribal Brasil(eiro) pt.2

 A única época em que sofri bullying na escola, eu ouvia aos berros enquanto passava, que eu era “baiana". Era bem nova e ficava pensando naquilo... Baiana é quem nasce na Bahia, oras! Isso não é xingamento! Para ela (loira de olhos azuis) e para muitas pessoas aqui da região sudeste, ser "baiana" implicava em se vestir ou usar roupas ou acessórios chamativos ou que não combinam.

Anos depois, penso que a Carmem Miranda imitava uma baiana com trajes típicos e fez carreira em cima da imagem. Sua figura é icônica até hoje, e nem brasileira ela era. Penso que tive o prazer de visitar a Bahia duas vezes a trabalho e que amei tudo que vivi lá. Penso que tenho amizades com pessoas incríveis da Bahia, e Salvador é uma das cidades que visitei que mais me encantou. 

Na Bahia também, presenciei um comentário de uma bailarina estrangeira que dizia que geralmente vendia as roupas mais coloridas "em lugares como esse aqui", com um tom de ironia. 

Então quem sabe a ironia da gringa é a mesma do país, das partes Sul e Sudeste principalmente, que ainda menospreza uma porção tão grande de seu território por uma visão eurocêntrica. 

A visão que nos separa e consolida a falta de senso de identidade na dança, na vida. Espero que ainda haja espaço para nos apropriarmos de tudo que temos de bom, tudo que podemos ser. Especialmente com as eleições chegando. Que a gente vote pelo país inteiro e não só pela parcela que já tem o que é necessidade básica, olhando só para o próprio umbigo e para o eixo “padrão global” Rio-SP.

E se hoje em dia já se sabe que é feio menosprezar o lugar de nascimento de alguém, ainda carregamos muito desse preconceito escondido (nem tanto). Que possamos evoluir para além desse pensamento colonial. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Por um Estilo Tribal Brasil(eiro)

Pessoalmente está muito marcante o tema do estilo tribal brasileiro nas últimas semanas. 
Não no sentido de "Fusão Tribal Brasil", mas num sentido de identidade. Algo que nos distinga, que faça com que ao redor do mundo sejamos reconhecidas por essa marca. 

Temos nossas peculiaridades na constituição física e no movimento. Porque então não temos uma marca específica, algo que faça as pessoas comentarem "ah sim, aquele estilo das brasileiras, sei como é!"...

Já crescemos demais e temos um bom número de profissionais qualificados. Mas, ainda podemos amadurecer mais no quesito de apropriação do estilo. Já sabemos toda sua linhagem e o que podemos alcançar com a criatividade que nos permite.

Temos referenciais do estilo norte americano, europeu e russo por exemplo, bem delimitados enquanto "escolas". Vejo diversas linhas nos EUA, seguindo mais as fontes de Jamila Salimpour ou Masha Archer, ou mais modernizados com referências do "The Indigo" e suas integrantes ou até mais puxado para o  cabaret americano. Vejo o estilo europeu como mais experimental, mais "simplificado" nos trajes e puxado para a dança contemporânea. O estilo russo tem os trajes mega brilhantes, deslocamentos, movimentos de impacto, muito alongamento, pernas e braços e uma tendência para músicas eletrônicas ou para o lado dos Balkan (sem surpresa aí rs). 

Gostaria de poder acrescentar a essa lista características bem brasileirinhas em que puxamos a sardinha para nossos pontos fortes! Investir em investigar o que podemos trazer de único para o estilo em termos de movimento, leitura musical e onde estão nossas afinidades em relação às raízes, sem "estar devendo" ser longilínea e ter o quadril estreito, entre outras coisas que se distanciam dos padrões da grande maioria de nós por aqui! 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Dicas de Figurino

Depois de bater muito a cabeça com figurino ao longo dos anos, descobri algumas maneiras de errar menos (repare que falo em errar menos e não em não errar! 🫢


Aqui compartilho 5 dicas que me ajudaram:


1-  Aprenda a enxergar as proporções:


Você conhece seu corpo e sabe quais pontos quer valorizar ou disfarçar no palco. Às vezes detalhes afetam muito o resultado final do figurino. Cada bracelete, brinco , colar e headpiece importam muito! Perceba se as proporções estão equilibradas, onde precisa de mais ou menos volume, onde tem informação demais ou “de menos”. 


2- Entenda as cores que te valorizam:


Existe uma regra geral do que fica bem em cada pessoa mas isso pode mudar dependendo da cor ou estilo de cabelo que estamos, ou até se você se bronzeou recentemente. Entenda isso e aplique tanto no figurino quanto na make, use pontos de cor que te favorecem na roupa, make e cabelos, se a cor da roupa for mais neutra ou preta. 


3- Saiba como seu figurino vai se comportar


Nunca vá para o palco sem dançar com a roupa completa algumas vezes. Você vai descobrir que precisa tirar algum acessório por causa de um movimento específico, ou prender melhor outro. Isso você só vai saber dançando com a roupa. Não vale a pena testar na hora.


4- Decida a "vibe" que quer passar com a roupa


Às vezes buscamos uma aura mais moderna, às vezes mais vintage, às vezes mais rústica… Perceba como aquela roupa conversa nesses detalhes com a música e a coreografia, e faça os ajustes de acordo. Nem sempre o que idealizamos de primeira é o que dá certo. 


5- Você não precisa usar tudo de uma vez só


Eu sei que amamos acessórios e exagerar na produção, mas não é tudo que vai ficar bem para toda performance. 

Às vezes menos é mais!

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Ocidentalizações: Tem que dançar, dançando!

Na minha jornada de yoga comecei com uma professora incrível que descobri ter sido aluna do Gerson D'Addio, com quem depois me formei. Com eles aprendi que yoga é uma coisa que a gente faz mais com presença do que com posturas elaboradas (embora essas possam fazer parte do pacote).

Ao longo dos anos fiz aulas com muitos outros, mas raramente encontrei algo como aquelas aulas mais "simples" da Hatha. É simples e muito difícil apenas estar numa postura. Respirar, aguentar a mente que quer sair da posição, ansiosa. Esse é o desafio! Ficar quando corpo e mente querem sair correndo. 

Asana não é pose pra foto. Asana é presença. 

Encontrei no Instagram uma jovem moça indiana praticando yoga. Reparei nela um estado de presença e meditação, mesmo nas posturas mais complexas, que não via há tempos pelas redes (que sempre insistem em me mostrar as moças ocidentais - de preferência loiras e magras).

Apesar de não querer reduzir o assunto a "ocidente X oriente", lembro da tendência que temos em valorizar o que é mais técnico e mental. 

Em meio a tantas "correções" técnicas que recebi em aulas de yoga, eu não conseguia alcançar o objetivo máximo das posturas: estar.

Não seria o mesmo para a dança? 

A origem oriental da dança do ventre não requer nada menos do que a presença e estado meditativo de um asana. A dança é uma prática integral que passa e fala pelo corpo, ela requer presença: cabeça e coração em uníssono. E não "chegamos lá" pensando em qual movimento de impacto usar a seguir. 



 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Amador

 amador

/ô/
adjetivo substantivo masculino
  1. 1. 
    frm. que ou o que ama; que ou o que tem amor a alguma pessoa; amante.
  2. 2. 
    que ou aquele que gosta muito de alguma coisa; amante, apreciador, entusiasta.

Essa semana estava pensando no significado da palavra e no quanto é necessário para o sucesso em qualquer profissão. Calma! rs Não é o amadorismo no sentido pejorativo, mal feito, mas o amadorismo no sentido original: aquele que ama, que faz com entusiasmo... 

Quantas vezes, depois de muito tempo na mesma atividade a gente esquece aquele entusiasmo inicial? Mesmo que não se torne profissional, muitas vezes a auto cobrança nos leva a níveis de stress que podem até superar o prazer inicial daquela atividade que antes era tão agradável.

Lembra de quando você começou a dançar, e só de fazer os movimentos já extraía uma alegria imensa?

 E o quanto essa sensação gostosa vai passando com o tempo, quando a auto cobrança vai aumentando, e quanto mais sabemos mais sabemos que precisamos aprender, até que não conseguimos mais valorizar o tanto que a gente já sabe? 

Aprender é natural em qualquer trabalho ou hobby, mas desfrutar do que já sabemos também! Se a gente sempre pensar no que precisa aprender estamos deixando de explorar nossas potencialidades com o que já temos no agora. Com o que já sabemos. 

Se toda vez que a gente for, por exemplo, começar uma coreografia ou uma performance nova, precisarmos aprender algo novo pra colocar ali, como que vamos aproveitar tudo que já aprendemos até agora? Quando vamos compartilhar o que já temos e fazemos bem com o mundo? Nessa cultura de superação eterna, sempre parece que se você não está sofrendo, não está fazendo nada que valha a pena de ser compartilhado. Mas olha só, na dança do ventre e na fusão, tem tudo a ver desfrutar o momento e fazer, fazendo mesmo! Sem ter que pensar pra fazer. Se a dança vem sempre da cabeça, não damos a chance do nosso corpo se expressar. Pensa só, quando você começou, não tinha tanto repertório e não conseguia fazer tanto ainda. Lembra do quanto era mais fácil deixar fluir quando você sabia menos? Vamos manter essa pequena chama do "amadorismo"no bom sentido acesa, e aproveitar e curtir o que fazemos bem também!

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Uma Carta do seu Futuro EU

 Sabe aquela sensação que a gente tem quando olha uma foto antiga e pensa "nossa, não era assim que eu me via na época!"? 

O tempo nos faz perceber as coisas de um jeito diferente do que quando a coisa está acontecendo ali, no momento né?

 Imagina o impacto que isso tem na nossa percepção das danças e dos trabalhos que realizamos! 

Quando olhamos para trás, nosso olhar está ajustado ao presente, e vemos o passado com outros olhos. Percepções sobre nós mesmas, nossa aparência, nossa DANÇA, tudo isso ganha um novo aspecto com o simples passar do tempo. 

Me pergunto o quanto não aproveitaríamos muito mais se conseguíssemos ter essa generosidade que o tempo traz ao olhar, só que no agora. Se a gente lembrar que o trabalho que estamos fazendo agora será visto por nós mesmas (assim esperamos! ;D) com muito mais boa vontade e carinho daqui a 5, 10 anos. Que vamos perceber qualidades que agora passam completamente despercebidas pois os "defeitos" insistem em gritar mais alto. 

Que legal seria conseguir aplicar essas lentes do tempo no agora, e nos tratarmos com um pouco mais de gentileza, como alguém que está aprendendo, que está fazendo o melhor que pode com o que tem no momento presente. Muito do trabalho de acompanhamento de performance tem a ver justamente com isso: ajudar a pessoa a ver qualidades que na hora estão escondidas do seu olhar, quando o que "tem que arrumar" tem a prioridade da percepção. Só que sem enxergar o que a gente tem de bom, o que tem de ruim ganha protagonismo e quando a prioridade é arrumar tudo, acabamos não conseguindo melhorar nada! O que fazemos quando a lista de afazeres é muito grande? Quase sempre acabamos por não fazer nada não é mesmo? Então priorizar os ajustes mais urgentes é uma boa maneira de focar para conseguirmos evoluir. E lembrar que daqui a 5 ou 10 anos você vai olhar pra trás pra esse mesmo material com muito mais carinho e orgulho do quanto a "você" do passado chegou longe! 

Que não esqueçamos de olhar pra trás e se orgulhar do quão longe já chegamos! ;)

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Sobre Mulheres e Dança

Que somos educadas, enquanto mulheres, para competir umas com as outras não é nenhuma novidade né? Uma cultura que estimula a rivalidade e competição feminina nos impele desde pequenas a enxergar com maus olhos outras mulheres e, por consequência, a nós mesmas. 

Percebi em todos esses 18 anos de envolvimento com a dança que muitas vezes temos atitudes machistas e competitivas sem ao menos perceber. Comentários maldosos sobre a dança, o corpo ou a roupa de outras colegas infelizmente são coisas comuns no dia a dia de quem está nesse meio. 


Observando isso, percebo que a mudança mais importante é a que começa por mim. Perceber quando estou sendo machista nas minhas colocações, na minha visão e até mesmo na maneira de olhar o trabalho de outras mulheres que dançam me ajuda muito a enxergar esse machismo ao redor e em mim mesma, que por mais que tente fugir, está enraizado em todos nós.


Muitas vezes percebi que minha postura em relação às minhas maiores referências ia mudando com o tempo, por perceber que aquela pessoa não é perfeita à prova de erros e nem um modelo ideal da minha própria expectativa. E já vi muito esse processo acontecer ao meu redor também. Quanto mais admiramos o trabalho de uma mulher, maior a expectativa que colocamos em cima dela e mais fácil fica nos decepcionarmos se algo não alcança essa expectativa. Mas o quão justo é esperar que alguém viva e trabalhe para atender às suas fantasias? Porque exigimos tanto assim de alguém que muitas vezes não é nem próximo da gente? 


Entender que todas somos humanas e cometemos erros, e estamos sujeitas às mesmas confusões que qualquer ser humano normal é um bom passo para reduzir expectativas fantasiosas a respeito das nossas “ídolas”. E a pergunta que realmente me faço é: será que temos o mesmo nível de exigência com nossos ídolos masculinos? Deixo com vocês essa questão! E aí, faz sentido pra você essas coisas que coloquei? Você já presenciou algo parecido? Fiquemos atentas e até semana que vem!

quarta-feira, 22 de junho de 2022

O medo do erro

 Novamente essa semana venho complementar a idéia da semana passada! Estamos tendo muitas trocas interessantes nas aulas dessa semana, e venho compartilhar aqui algumas delas com vocês. 

No que diz respeito à experimentar, sabemos que quanto mais experiência temos, mais existem expectativas em torno do nosso trabalho e mais suscetíveis estamos ao julgamento alheio, coisa que pode ser bem paralisante né? O medo de errar existe e é bem genuíno rs. O que não podemos deixar que aconteça é que ele nos impeça de criar. O ato criativo é bagunçado, ele não é previsível e a gente nunca sabe se o resultado final vai atender às nossas expectativas, que dirá a dos outros! Por isso a criação é importante, e não a tentativa de perfeição que não existe. 

Digo que esse post é complementar ao outro por esse motivo: "oras, mas você não falou para delimitar melhor os contornos do estilo e deixar as experimentações de fora?". Justamente! As experimentações são o que o trazem a nossa evolução pessoal, o nosso estilo de dançar, nos alimenta e nutre o criativo de outra forma. Mas nem tudo que fazemos de forma experimental precisa entrar num show que se denomine de "Fusion Bellydance", por exemplo... Existem vários meios de mostrar trabalhos, e novamente, que a gente experimente muito e livremente, mas sem a necessidade de colocar tudo embaixo do "guarda-chuva" do tribal. Vamos deixar que as experiências corram soltas, que as linguagens ou não-linguagens se misturem, conversem entre si e desabrochem no nosso corpo e na nossa movimentação. Isso é lindo e necessário! Não deixe que o medo de errar te impeça de explorar suas potencialidades. Mas que tenhamos lugares apropriados para isso também, e possamos fortalecer e deixar sólida cada vez mais a imagem desse estilo para que possamos ter como explicar para os outros o que fazemos, para que possamos divulgar de maneira concreta o nosso trabalho, e fortalecer a nossa dança e sua comunidade cada vez mais (de novo) pelo mundo.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Novas Reflexões para Novos Tempos

 Semana passada coloquei uma caixinha de perguntas no meu Instagram e tive umas respostas e conversas bem interessantes que me ajudaram a refletir sobre os novos rumos que nosso estilo de dança está tomando. 

Se olharmos para a linha do tempo, ele tem cerca de 20 anos, e portanto apenas agora entrando realmente na maioridade por assim dizer rsrs. Não existe mais aquele furor inicial, aquela sede de inovação e descoberta, experiências novas... Agora estamos em um outro momento em que muitas de nós já vimos muita coisa ser feita, e já temos todo um passado para estudar olhando de longe. Para um estilo novo, nascido no final dos anos 90, cheio de referências, é um tempo justo para que agora estejamos finalmente refletindo sobre a nossa prática para que possamos aprofundar nosso entendimento e dessa forma, melhor educar nosso público e garantir melhor um futuro sadio para essa dança que tanto amamos. 

No momento me encontro no meio de muitos questionamentos, dificuldade de definir o que eu faço para novas pessoas, dificuldade de nomear e também de explicar de forma clara e abrangente. Na real, essa dificuldade eu sempre tive e agora ela só piora porque sei que é também a dificuldade de muitos outros. 

Tenho pensado que uma forma de tentar lidar com isso, mesmo que não seja a única ou a melhor, é começar a questionar cada vez mais o porque das nossas escolhas, sejam elas musicais, de figurino ou de repertório de movimentos. Penso que se esse movimento todo em volta do nome e da ética em nossa prática serviu para alguma coisa, foi para nos fortalecermos em nossos conceitos, em nossos porquês e também no que esperamos para o futuro do estilo. 

Definir melhor para preservar melhor é o que tem passado pela minha cabeça ultimamente. Definir melhor primeiro para nós mesmas, procurar nossas próprias respostas para que isso também tenha força e sentido na comunidade. Creio que esse foi o ponto fraco que não previmos, nunca houve um consenso né? Talvez se não tivéssemos nos mantido tão abertas para abraçar e receber toda e qualquer experiência como parte do estilo, ele tivesse conseguido se manter um pouco mais firme. E com isso, não quero dizer que não devamos nos manter abertas para experiências novas dentro da dança e da linguagem, apenas que talvez seja uma boa idéia manter as experiências bem definidas como tal: trabalhos experimentais, autorais. Assumir a experiência, assumir a autoria e não "botar na conta" do estilo. Algumas das minhas bailarinas favoritas são bem experimentais, e não vejo nenhum problema nisso!

Que busquemos perguntas e respostas para um futuro bem sucedido e, com esperança, longínquo! 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Figurinos e História

 Engraçado como às vezes a gente esquece do passado e do que um dia era sonho né? Lembro das primeiras vezes que vi apresentações de Fusion Bellydance (que na época todo mundo chamava de Tribal Fusion mesmo) o quanto fui atraída pelos figurinos. Pareciam uma mistura de acessórios comuns do dia a dia com itens raros de coleções antigas, muito antigas. O resultado era uma mistura única de passado e presente, antiguidade e contemporaneidade, e aquilo era muito fascinante pra mim. Hoje penso que isso é tanto do que compõe esse estilo de dança também. Tradição e inovação andando de mãos dadas. 

A idéia de o traje poder ser composto de coisas de que eu gosto, um amontoado de pecinhas cheias de significado e histórias por trás, era e ainda é um atrativo enorme pra mim. Outro dia estava arrumando meus figurinos e fui percebendo quantas combinações ainda não usei, e como tenho aquelas peças favoritas, que quase sempre estão comigo em qualquer apresentação, quase como amuletos. Quando comecei, há 20 anos atrás, sonhava em um dia ter uma pequena coleção, composta por aqueles itens de joalharia antiga de outros povos, que eu admirava tanto pela força e pela beleza, e pelo tanto de peso (literal e figurativamente) que eles traziam pra imagem da dançarina. Nesse dia em que estava arrumando as coisas, fiquei feliz de perceber que eu consegui minha pequena coleção! E pra dançar, ainda sinto que meus figurinos favoritos são aqueles que são compostos pela mistura de itens e não aqueles que são feitinhos para serem conjuntos. Nos meus processos já fiz as duas coisas, tanto montar "conjuntos" já planejados quanto aqueles que encontramos por acaso no meio dos trajes que já temos. Os meus favoritos  são os do segundo tipo. Leva tempo, paciência, às vezes um tantinho de saber bordar uma coisinha na outra (agradeço imensamente à minha sogra por me ensinar essa parte!) mas é essa construção que torna tudo mais especial do meu ponto de vista. Pra mim é como subir no palco fantasiada de mim mesma! rs Não sinto como algo fora de mim, um personagem. É uma faceta minha que não exerço em outro lugar, apenas isso. Mas nunca uma "fantasia" ou algo de que eu me envergonhe, ou queira esconder. Acho que é assim que um bom traje nos faz sentir! E descobrir os trajes que faziam isso por mim foi tão, mas tão importante no meu processo! Por isso que é um dos itens que faço questão de abordar nos projetos de mentoria para performance. Você precisa subir no palco se sentindo muito bem com sua roupa. É quase um super poder hehehe!

Um dos sonhos recorrentes que eu tinha alguns anos atrás era de que eu ia me apresentar, estava prestes a entrar no palco, e percebia que tinha esquecido todos os meus acessórios, ou o figurino completo de uma vez. Tava mais pra pesadelo do que pra sonho! rs Um dia esse sonho quase se concretizou, esqueci meus colares e headpiece, que já é muito! A sorte foi que ia dançar com minhas alunas e tinha acabado de passar numa loja de bijus e feito a limpa pra levar acessórios pra complementar o figurino delas. Então acabei usando essas mesmas pra substituir as que eu tinha esquecido. Já fiz performances mais clean, intencionalmente, mas mesmo nessas tenho aquelas peças chave que não tiro, os tais amuletos. Mas alguma coisinha sempre está ali pra ajudar a materializar a minha visão do estilo. E pra você, o que seus figurinos representam?

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Motivação em momentos de desânimo

Essa semana ainda não sabia sobre o que eu ia escrever então fui atrás das sugestões de vocês! Achei apropriada pra ocasião uma das sugestões, que foi "O que te motiva em momentos de desânimo" e senti vontade de falar um pouquinho sobre isso aqui!

Pra ser bem sincera, no cenário político e mundial atual, na dança e fora dela, frequentemente existem momentos de desmotivação da minha parte. E acho que, em boa parte das vezes, o que eu faço é não forçar. 

Nesse trabalho existem coisas que são necessárias, que você tem que fazer: manter atividade nas mídias sociais, responder mensagens, enviar informações, dar aulas, montar aulas, tudo isso é o básico necessário. Não sinto que preciso estar ultra motivada 100% do tempo para realizar o meu trabalho, pois isso não é realista em nenhum trabalho, seja ele qual for. 

Mas às vezes, para manter um nível de produtividade e animação mínimos, eu preciso sacudir um pouco a poeira. Fazer uma boa aula, seja de yoga ou de dança, antes de fazer o que preciso costuma fazer muito pela minha motivação, falando de um jeito prático mesmo! Precisa gravar um vídeo ou montar uma aula e está sem inspiração? Faz uma aula que a energia flui e você não termina a mesma do que quando começou, garantido. 

Um outro caso que acontece muito por aqui é quando preciso criar algo, seja uma performance, uma sequência nova, e me perco em meio a um turbilhão de idéias e acabo não decidindo nada. Isso acaba me desmotivando e me coloco numa procrastinação infinita e nunca realizando o que preciso, o que me deixa muito desmotivada no final. Então muitas vezes o que preciso fazer é apenas escolher algo e fazer. Sem pensar muito, sem problematizar, apenas fazer. Quando ficamos enchendo a cabeça com a idéia de que temos que fazer algo que seja perfeito, a gente acaba não fazendo nada. E não há nada mais desmotivador do que ter um monte de idéias e não fazer nada. Então abaixar um pouquinho o perfeccionismo ajuda muita às vezes. 

Agora falando de uma forma mais ampla na dança, se estamos passando por um momento de desânimo por algum motivo, sempre me ajuda retornar aos materiais que me fizeram chegar até aqui. O que eu assistia no começo que me fazia sentir que aquilo era especial, as fotos, os vídeos, os figurinos, os sons, entrar em contato e refinar cada vez mais a minha percepção do porque eu escolhi a dança, o que fez eu me apaixonar e me firmar nisso, tentando fazer o meu trabalho de uma forma que honre essa Mariana do passado que era totalmente obcecada por isso. Nem sempre buscar inspiração no novo vai te deixar motivada, às vezes é bem o contrário!

Pra finalizar, às vezes se o desânimo tá brabo mesmo o melhor é dar tempo ao tempo, se afastar um pouco na medida do possível e não forçar a paixão novamente, deixa ver se ela volta! A distância também ajuda a ver as coisas de uma outra forma e frequentemente é isso que a gente precisa pra voltar a ver algo com um novo olhar, fresco de novo. É isso! Espero que alguma dessas idéias faça sentido pra vocês e possa ajudar de alguma forma! Até a próxima semana! ;)

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Aproveitando as aulas online

 Bom, a realidade do online permanece firme e forte, e algumas pessoas até optaram por esse formato em vez do presencial por vários motivos: não precisar de transporte para chegar até a aula, otimizar o tempo fazendo um hobby na sua própria casa, ter acesso a professores que não estão na sua cidade e muitos outros confortos que acompanham esse formato de aulas. Apesar disso, às vezes fazendo e outras vezes dando aula, sinto que a entrega e atenção de quem faz as aulas poderia ser maior. Baseado nisso e na minha própria experiência como aluna há muitos e muitos anos nesse formato, resolvi compartilhar algumas dicas que sempre me ajudam a fazer render mais fazendo aulas nesse formato:

- Desligue o celular, ou as notificações

Muitas vezes estando em casa, quando não moramos sozinhos, podemos ser interrompidos por alguém passando, a campainha que toca, alguém que fala com você ou coisas desse tipo. O celular tocando ou te avisando de alguma coisa já toma sua atenção na mesma hora e já entramos num modo que sai daquele foco da aula. Às vezes até te distrai e você acaba se envolvendo com outra coisa e saindo ali daquele momento de presença da aula. Desligue do celular e foque no que importa, lembre que essa 1 hora ou 1:30 ou quanto tempo for é só pra você e sua prática. Tenha esse carinho com você mesmo e com a sua prática de atividade física ou dança. 

- Mantenha água por perto

Ter sede é normal com todo mundo, rs mas você não precisa sair correndo pra ir até a cozinha pegar água. Deixe por perto a água assim você não precisa ir pra outra parte da sua casa no meio da aula, onde, novamente, você pode encontrar alguém, ou seu pet, pra te distrair. 

-Tenha sempre um caderninho e lápis por perto

Faça anotações de coisas interessantes que vir durante a aula, anote idéias que você teve ou insights importantes. Isso vai te ajudar a ter um melhor rendimento

- Trate com a importância que você trataria como se o professor estivesse na sua sala, porque ele está!

Foco já é uma coisa complicada nos dias de hoje. Trate com a mesma importância que você daria se estivesse presencial. Mantenha a câmera aberta e interaja. Isso também vai te ajudar a ter mais proximidade com seus colegas, a se sentir parte da turma. 

- Em resumo, se prepare!

Separe suas coisas, troque de roupa e se arrume como se fosse pra uma aula presencial. Isso vai te colocar no clima pra dançar ou se movimentar, e te estimular até a prolongar a prática pra depois da aula. Não faça a aula com fome, separe um lanchinho pra comer antes, algo leve que não vai te deixar passar fome mas não vai te atrapalhar a atenção. Separe tudo que for precisar antes, e chegue preparada. Respeite o seu tempo e o tempo do professor que está ali pra te ajudar na sua evolução. A sua participação é tão importante quanto a do professor, e o trabalho é sempre meio a meio!



quarta-feira, 18 de maio de 2022

Dançar A Vida

 Hoje resolvi trazer pra vocês um trechinho de um dos meus livros favoritos sobre dança: Dançar a Vida, do Roger Garaudy. Ler esse livro foi o que me fez querer escrever sobre o que escrevi no meu artigo de pós-graduação em Dança e Consciência Corporal. Pra quem não leu o artigo e quiser ler, está disponível no meu site na aba “Artigo Acadêmico”. Agora vamos ao que interessa! Esse trecho é da introdução, escrita pelo bailarino Maurice Béjart, e pra mim foi 🤯 Aí vai:


“A dança é também uma meditação, um meio de conhecimento, a um só tempo introspectivo e do mundo exterior. Há alguns anos, encontrei na Índia um mestre yogi autêntico e muito considerado. Revelei-lhe meu desejo de fazer yoga de maneira profunda, e não essa ginasticazinha para gente de sociedade com hipertensão a que estamos habituados. Ele me respondeu: “A palavra yoga significa união. Esta união, você poderá encontrá-la na dança, pois a dança também é união. Você é dançarino. Shiva, o Senhor do mundo, o grande yogi, tem igualmente o nome de Nataraja, o rei da dança… Você é dançarino, você tem sorte. Que a sua dança seja o seu yoga, não procure outro”. Mais tarde, na hora de nos separarmos, olhou-me e disse: “Ah! Se todos os ocidentais pudessem reaprender a dançar”.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

A Dança Como Ritual

Hoje vim falar sobre um tema que escuto muito, mas com um ótica um tanto diferente. Existem claro, muitas formas de encarar a dança como um ritual, e até mesmo danças ritualísticas, tradicionais ou não.
Mas o que eu gostaria de abordar aqui hoje não é nenhuma dessas. Vim falar sobre como encarar a nossa prática, as nossas aulas, o nosso fazer da dança, como algo ritual. 

Já tem um tempo que venho percebendo a importância - especialmente nos dias de hoje em que cada vez mais temos dificuldade de nos concentrarmos em uma tarefa por vez - de encararmos a prática da dança, de uma forma geral, com uma concentração, entrega e foco dignos de algo realmente importante pra nós. Porque na verdade, é! Se não fosse, não faríamos! E, já que é importante, porque não tratar aquele momento da aula, ou do treino, como algo especial na sua rotina? Não estou falando necessariamente de acender vela, incenso, botar acessórios, botar cinto (embora essas coisas muitas vezes sejam estímulos gostosos pra motivar) mas de botar a atitude mental naquilo. Quando queremos aprender verdadeiramente algo, quando estamos entregues naquela ação, o aprendizado se torna mais fácil. É disso que estou falando! Fazer com entrega, com atenção, desligar as notificações do telefone por um tempo, e estar ali, naquele momento só nosso, nossa mente e nosso corpo em uníssono na ação de dançar. Não importa muito o tempo dedicado, seja 5 minutos ou 3 horas, que possamos nesse tempo estar imersos apenas naquela ação. Silenciar o mundo para abrir a escuta interna. 

Especialmente em se falando de aulas online, percebo muitas vezes distrações, parar toda hora pra fazer outra coisa, beber água, fazer xixi, ligar o ventilador, pequenas coisas que não nos permitem estar ali 100% presentes. Quando nos apresentamos dessa forma, presentes e atentas, a inspiração flui melhor e somos capazes de desfrutar mais do que estamos fazendo. E, no final, isso é o que importa né?

quarta-feira, 4 de maio de 2022

A dor

 Esse fim de semana fiz um curso em que a professora estava comentando como ela desenvolveu o método dela, também como uma forma de não sentir tanta dor ao dançar. 

Entre coisas maravilhosas da dança como modo de vida existem muitas  outras que não são nem um pouco maravilhosas, e muitas delas parecem que ficam meio ocultas ou viram até mesmo tabu. Essa questão da dor, como estávamos conversando no curso, é uma delas. E mesmo o gênero de dança que pratico não sendo tão fisicamente exigente como a dança em questão (que no caso era o ballet), ainda assim, a prática da dança diária costuma sim vir acompanhada de dores. 

Lembro no começo, em que eu participava de um fórum na internet com várias bailarinas de tribal de vários níveis de experiência, e uma dúvida que joguei na época tinha justamente a ver com essa questão! Eu perguntei: é normal estar sempre dolorida? E a resposta de uma bailarina super experiente foi essa: sim! rs E desde então eu acho que havia me esquecido disso. Toda vez que estou treinando muito, ou dando muitas aulas, ou os dois, elas aparecem. Sempre vamos aprendendo a contornar uma ou outra questão, aquelas dores que já são velhas amigas, por assim dizer, mas sim, dançar todo dia vem com grandes chances de experimentar dores musculares frequentes. Vai da nossa educação a respeito do nosso próprio corpo, e das orientações das professoras de sua confiança, entendermos o quanto e quais dores são "normais" da prática, de adquirir uma nova habilidade no seu corpo se você for iniciante, e quais são sinal de que algo não está bem e pode representar uma futura lesão se não for corrigido. 

Começar a dançar é um convite ao contato com nosso próprio corpo e pode ser uma jornada muito linda de muito auto conhecimento, mas se não for bem direcionada, também pode levar a consequências não tão boas. Conhecimento sobre o corpo e maneiras seguras de praticar devem sempre estar presentes em suas aulas de dança para garantir anos de prática sem lesões, mas não necessariamente sem dor nenhuma! rsrs 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

The Night Dances- Sylvia Plath

Essa semana trago um poema de uma das minhas poetas favoritas, Sylvia Plath. A escrita dela tem uma mistura de força e delicadeza que acho maravilhosa… primeiro o original, depois uma tradução (não feita por mim)

The Night Dances - Sylvia Plath

A smile fell in the grass.
Irretrievable!

And how will your night dances
Lose themselves. In mathematics?

Such pure leaps and spirals ——
Surely they travel

The world forever, I shall not entirely
Sit emptied of beauties, the gift

Of your small breath, the drenched grass
Smell of your sleeps, lilies, lilies.

Their flesh bears no relation.
Cold folds of ego, the calla,

And the tiger, embellishing itself ——
Spots, and a spread of hot petals.

The comets
Have such a space to cross,

Such coldness, forgetfulness.
So your gestures flake off ——

Warm and human, then their pink light
Bleeding and peeling

Through the black amnesias of heaven.
Why am I given

These lamps, these planets
Falling like blessings, like flakes

Six sided, white
On my eyes, my lips, my hair

Touching and melting.
Nowhere.

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As Danças da Noite - Sylvia Plath

Um sorriso caiu na relva. 
Irrecuperavelemente! 

E como irão perder-se 
As tuas danças nocturnas. Na matemática? 

Tão puros saltos e espirais - 
Certamente viajam 

Eternamente pelo mundo, não hei-de ficar 
Despida de belezas, o dom 

Do teu pequeno sopro, o cheiro 
A terra molhada, lírios, lírios. 

A sua carne não aguenta aproximações. 
Frios vincos de um ego, o narciso, 

E o tigre que se embeleza a si próprio - 
Sinais e uma chuva de pétalas de fogo. 

Os cometas 
Têm um espaço tão grande a atravessar, 

Tanta frieza, esquecimento, 
Assim se esfumam teus gestos - 

Calorosos e humanos, depois a sua luz rosa 
A sangrar e a pelar 

Entre as negras amnésias do céu. 
Por que me dão 

Estas luzes, estes planetas 
Caindo como bençãos, como línguas de luz 

De seis pontas, brancas 
Nos meus olhos, lábios, cabelo 

Ao tocarem desfazem-se. 
Em lugar nenhum. 

(Tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio D'Água)

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Algo um pouco diferente e um pouco antigo

 A mente é corrente. É fluxo, aprisiona e liberta. Corrente de rio, fluxo de água, a mente não cessa, cachoeira e prisão. A mente é corrente, corrente de rio, corrente de ferro, de aço que não dá pra quebrar, não enferruja, trilho de trem. Corrente sem ferrugem, corrente com ferrugem, e se saísse duas vezes repetido o que que tem? A mente é caminho, a mente é domada, ou não. A mente não mente e a gente mente. O ego mente, a mente não mente, mente é espelho convexo. 

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Drill, Drill, Drill

 Certo! Estamos de volta essa semana com um assunto que muito me interessa, que é o fundamento absoluto da minha prática pessoal e eu tenho certeza que foi uma das coisas que mais me ajudou a alcançar qualquer coisa que eu tenha de bom na minha dança tecnicamente falando: o Drill! 

Mas o que é isso? Uma palavrinha danada, que nunca achei tradução adequada em português, basicamente significa treino. Mas não é qualquer tipo de treino. O "drill" (de acordo com o dicionário de Cambridge) é uma "atividade regular: uma atividade que pratica uma determinada habilidade e frequentemente envolve repetir a mesma coisa diversas vezes, especialmente um exercício militar com objetivo de treinar soldados". Então, vê como tem diferença de treino pra drill? O drill é aquela repetição que gente faz a mesma coisa até cansar, até sair, ou até ficar bom naquilo, basicamente. 

Eu amo fazer esse tipo de treino e considero ele totalmente necessário para qualquer habilidade em que a gente deseje desenvolver proficiência. E tem a ver também com aprofundar sua habilidade, com tornar o básico extraordinário. Se temos uma execução com erros posturais, de alinhamento, de ritmo, seja lá o que for e ficamos apenas repetindo do mesmo jeito sem corrigir, o treino obviamente não servirá para muita coisa. Mas quando treinamos com repetição para realmente melhorar, olhando com foco para o que está faltando, ou sobrando, isso faz com que elevemos muito a qualidade do nosso movimento. 

É também relacionado à paciência de quebrar em pequenas partes para descobrir o que está saindo errado no movimento. Percebo muitas vezes em aula, principalmente com alunas que tem mais anos de prática, que existe uma dificuldade em cultivar a paciência de quebrar um movimento que você já está acostumada a fazer em várias partezinhas menores, em "voltar duas ou três casinhas" de determinado movimento pra avaliar como ele está sendo executado. E isso às vezes é exatamente o que precisa pra você dar aquele passo à frente que tanto almeja. Voltar um pouquinho para então poder progredir. Não se engane: toda bailarina que você admira passa pelos básicos ao longo de sua trajetória, diversas e diversas vezes. O microscópico. Só assim a gente consegue progredir, melhorando ainda mais o que já temos de bom no corpo e juntamente com isso, adquirindo novas habilidades. Se o movimento básico não está ótimo, dificilmente algo mais complexo ficará bom. 

Por hoje é só pessoal! Invistam em seus treinos, caprichem sem pressa e os resultados virão com certeza! Um beijo e uma ótima semana pra vocês!

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Pagando as conta$ com dança

 Esse tema foi sugerido quando abri a caixinha de sugestões no instagram, achei interessante porque não lembro de ter lido nada a respeito, então resolvi dar um tiquinho de atenção pra ele aqui! Afinal, é um trabalho como qualquer outro e quase nunca falamos sobre dinheiro no meio né? Talvez por essa idéia de que quem dança o faz por amor, o que não deixa de ser verdade, mas sabemos que amor não paga boleto né? Então vamos lá! Coisas que talvez ninguém tenha te dito sobre trabalhar com dança: 

1- Você precisa entender de onde vai tirar sua renda, provavelmente precisará exercer vários trabalhos pra conseguir juntar as pontas no fim do mês: dar aula de mais de uma modalidade, dançar em restaurante, dar aula particular, em grupo, workshop interestadual, online, editais e projetos… enfim cada profissional terá sua renda vinda de vários lugares e você precisa entender quais são os seus para focar propriamente em cada uma deles.

2- Você terá muitos gastos. Figurinos, roupas e materiais pra aula, anualidade ou mensalidade de aplicativos ou servidores que você usa pra divulgar/realizar seu trabalho, aulas pra se manter atualizado. Quem trabalha com o corpo precisa estar sempre atualizado, literalmente em movimento! Profissionais da dança precisam fazer aulas. Professores também. Pra dar aula, é preciso fazer aulas, se especializar e se atualizar constantemente pra entregar sempre o melhor possível. Isso também representa um gasto. 

3- Você vai ser seu treinador, seu marketeiro, seu figurinista, seu coreógrafo, seu organizador, planejador anual, muitas vezes designer, videomaker, fotógrafo, editor… são muitas e muitas funções que temos que exercer porque a maioria de nós é totalmente autônomo. Então quem vai planejar seus novos cursos, montar suas aulas, fazer a divulgação, bolar conteúdo, decidir quando é hora de renovar o guarda-roupa, fazer book novo, decidir quando precisa descansar, quando precisa trabalhar, tudo é você! Tudo mesmo! 😅

4- Por isso mesmo que falei acima, é muito fácil pirar, perder o foco, sair do giro. Então você precisa ter sempre muito claro pra você os seus porquês. Trabalhar com dança é um estilo de vida, e envolve tanto mais do que dançar. O seu dia a dia envolvida com o que gosta é a maior recompensa no final de cada dia. Não se fica milionário, na maioria dos casos. Talvez existam alguns isolados que aconteçam mas não é a realidade da maioria. Nem rico na real! rs. Então o que vale mesmo é como você passa seus dias, e saber exatamente quais são seus maiores prazeres dentro do seu trabalho vai te ajudar a alimentar isso pra que não perca o foco. Talvez seu maior estímulo esteja na prática pessoal e em evoluir cada vez mais. Talvez esteja em ver a evolução das suas alunas. Talvez em subir no palco. Talvez planejar e ministrar aulas e cursos. Claro que cada coisa tem o seu lugar especial, mas se identificarmos o que nos move mais, podemos investir mais nesses pontos e manter mais claro para nós mesmas o que nos trouxe até aqui. 

5- Acredito que seja muito difícil construir uma vida “do zero” só com dança. De novo, claro que existem exceções, mas num geral, comprar apartamento, carro, viajar e ter uma qualidade de vida, tudo ao mesmo tempo, não são muito compatíveis com a realidade de quanto se ganha na dança. Especialmente numa economia maravilhosa e estável (só que não) como a do Brasil. Então se você está atrás desses ideais, talvez seja legal repensar suas prioridades. 

6- Dito isso, emenda exatamente no que vou dizer agora: ter outro trabalho não significa que você é menos profissional ou menos apaixonado pela dança. Existem muitos artistas que sustentam por anos outros trabalhos pra garantir seu caixa, e não tem absolutamente nada de errado com isso (contanto que você não interfira com o mercado trabalhando de graça ou praticando preços injustos).



Espero ter ajudado a clarear alguns pontos sobre esse assunto, e como sempre, aceito sugestões de temas futuros!


Muito obrigada por me acompanhar e até a próxima! 

quarta-feira, 30 de março de 2022

Dança, yoga e presença

Continuando (como quase sempre hehehe) o assunto da semana anterior, hoje venho com mais uma das percepções que o tempo, e esse marco dos 18 anos de dança, me trouxe.

Quando comecei a estudar o tribal fusion, não tinha muitos vídeos em que nos basearmos e nem material abundante. Eu tinha um dvd de aula da Rachel, que fazia religiosamente, mais uma meia dúzia de vídeos de performance pra estudar. Eu sabia que a yoga era aliada do estilo, então a primeira coisa que fiz, claro, foi ir correndo procurar aulas. Dei muita sorte na época de cair numa aula boa, com minha primeira professora, a Yolanda, que depois descobri ter se formado com o mesmo professor que escolhi pra minha formação, o Gerson D’Addio. A princípio, eu não entendia como aquelas coisas se relacionavam. Achava que tinha uma questão física, óbvio, que facilitaria a dança, mas fui descobrindo com o tempo e com a prática, que era muito mais do que isso. 


Sempre fui muito atraída pela subjetividade, pelo não dito, pelo que está por trás, o que não podemos ver mas podemos sentir. Acho até que por isso o tribal me atraiu tanto. Tinha tanto ali que estava implícito! E principalmente, uma presença. Uma presença forte, que quase que como um fenômeno da natureza, apenas existia, não estava ali para “dar show”. Era aquela sensação que o ATS trazia, ao dançar em grupo. É obvio que uma performance é sempre direcionada para um terceiro, para o público, mas a verdade é que pra dançar ATS precisamos praticar tanto antes (por ser uma improvisação coordenada em grupo) que o que vai para o palco é apenas uma extensão do que rolava na rotina de cada uma. E era essa sensação que chegava para o público. Ele estava ali vendo um produto final de algo que seria do mesmo jeito se ele não estivesse ali. Faz sentido? rs 


Voltando ao estado de presença, é aí que está o pulo do gato pra mim. Assim como na prática de yoga, precisamos estar presentes de corpo e mente naquela ação de dançar. Yoga sem atenção plena é ginástica. Tribal Fusion, na minha concepção do estilo e de tudo que me atraiu a respeito dele, também! 

E foi aí que entendi que a yoga é o que somos, não o que fazemos. A atitude mental da prática se transfere para o dia a dia, e aquilo se torna sua maneira de viver. Da mesma forma, a prática pessoal na dança se torna quem você é, e o que o público vê é apenas um recorte do que você é e faz no seu dia a dia. Por isso a prática constante, por isso do improviso ser uma idéia tão interessante (que conversa tanto com o ATS quanto com a nossa raiz primária, a dança do ventre). Quando vemos Fifi Abdo dançar é como vê-la respirar. A dança não é forçada, pensada, feita pra impressionar. 

A dança É. Sejamos! 

quarta-feira, 23 de março de 2022

18 Anos!

 Esse mês completo 18 anos desde que entrei pela primeira vez numa aula de dança do ventre. 

São 18 anos estudando e vivendo o (ex) Tribal Fusion, tentando entender porque ele é como é, porque reverberou tanto em mim... E chego nesse momento mais uma vez cheia de percepções novas a respeito de coisas antigas, que é basicamente o resumo desses meus 18 anos vivendo essa dança todos os dias. 

Tenho muitas coisas pra compartilhar, mas vou deixando mais espalhadinho pelos tópicos semanais aqui... Muita coisa está fervilhando aqui dentro, quem faz aula semanal já sabe um pouquinho do que tá rolando! rs Sempre muitas coisas rolando, mas dessa vez me parece diferente. 

O post de hoje é um pouco mais íntimo e também mais conceitual... Espero que chegue até aí 💜

"Como já fui e voltei tantas vezes,  já sei melhor os caminhos. 

Por ter me perdido tantas vezes, já conheço os caminhos de volta. 

Como já fui e voltei tantas vezes, muitas portas já estão destrancadas...

Às vezes elas batem com o vento e fecham novamente, mas eu consigo abrir de volta só de virar a maçaneta.

Como já fui e voltei tantas vezes, agora já sei o caminho. 

Não perdi tempo. Fui e voltei pela mesma estrada, tantas e tantas vezes, como a caminho da escola. 

As trilhas tornam-se velhas amigas, às vezes tem uma surpresa, às vezes algo esquecido. 

Mas nunca perda de tempo. 

Como já fui e voltei tantas vezes, agora já sei o caminho."

Março/2022

quarta-feira, 16 de março de 2022

Auto sabotagem, percepções sobre o próprio corpo e a prática (cont.)

 Pensando em como reverberou o último post, sobre nossa auto imagem e como ela interfere na nossa prática saudável e bem sucedida da dança, pensei em me prolongar um pouquinho mais nesse assunto, o que me levou imediatamente para o seguinte: auto sabotagem. No fundo, deixar que o assunto do post anterior nos impeça de realizar coisas, não deixa de ser mais uma forma da nossa velha amiga! De quantas formas nós conseguimos nos auto sabotar? Infinitas!

Nos meus anos de prática, sendo aluna e professora, eu já vi ela se manifestar, em mim mesma e em outras pessoas, de tantas e tão criativas formas! Achar que nosso corpo não é "adequado" e por isso nunca será capaz de realizar os movimentos X, Y e Z é uma delas. Também já vi coreografias prontíssimas "quererem ir" para o fundo da gaveta porque "não estão boas o suficiente". Mudar de idéia toda hora, evitando ter consistência em algo, e consequentemente não realizando nada, é outra! Achar que antes de treinar, ou fazer o que você precisa, tem que acender incenso, por uma roupa boa, lavar o rosto, fazer um lanchinho, esperar vir a vontade, é outra! Focar em práticas que não são exatamente as que vão levar você aonde você quer chegar, e fingir que você não alcança determinado objetivo porque não é boa o suficiente, é outra! Também, querer dominar alguma técnica abdominal mas achar que para isso você primeiro tem que ter uma barriga "sequinha"(o que nos leva diretamente ao post anterior!). Gente, são muitas mesmo as formas da gente se auto sabotar. Não sou isenta, muito longe disso, e eu mesma pratico há anos! 😅

Pra mim, mesmo que difícil manter o foco, o jeito menos difícil (nem vou dizer mais fácil porque mais fácil acho que não tem!) de driblar essa danada é ter focos bem específicos, e um de cada vez. Se você quer melhorar em giros, pratique-os todo dia um pouquinho. Sem precisar do alinhamento planetário certo. Se você quer finalmente resolver a sua relação com os bellyrolls ou flutters, pratique um pouquinho todo dia. Busque outras práticas que vão te ajudar com aquele objetivo em específico. Basicamente, você vai continuar sabendo que precisa ou querendo melhorar seus braços, mas por hora, deixa eles pra depois... focar em uma coisa de cada vez faz com que você consiga ter objetivos mais concretos e resultados mais palpáveis. Seja honesta com você mesma. O que é mais urgente pra você trabalhar agora? Foque nisso, depois, mude de foco. 

Lembre-se que seu objetivo é dançar bem! E de um jeito que é só seu, melhor ainda!

Tem um livro muito bom que eu indico super em relação a trabalho e disciplina chamado "A guerra da arte" do Steven Pressfield. Lá ele dá muitas dicas pra gente conseguir realizar trabalhos criativos, mas a tecla que ele sempre sempre bate é essa: desmistifique o processo. Vá lá e faça o que tem que ser feito, um dia de cada vez, cada dia um pouquinho. Não é em um dia que seu shimmie vai sair perfeito. Mas é um pouquinho todo dia que vai fazer com que ele de fato melhore. E é assim com tudo. Quando a gente é muito imediatista, isso causa um ansiedade de que não estamos vendo progresso e assim nos desanimamos de continuar na prática. Mas é devagar e sempre que a mágica acontece. Não existe passe de mágica, mas sim consistência e consciência de onde queremos chegar. E é isso que faz toda a diferença!

quinta-feira, 10 de março de 2022

Percepções do próprio corpo e a Dança

Passada aí a semana do dia da mulher e nem tenho muito  o que comentar sobre isso tamanho o abismo que ainda temos que subir pra ter algo similar a igualdade de direitos em relação aos homens... Uma das coisas importantes nesse assunto é a forma como somos induzidas a perceber nossos corpos. Sempre com algum "defeito", alguma "falha", algo a ser corrigido, uma barriga que sobra, um cabelo que falta, uma pele que tem poros, uma sobrancelha que tem um fio fora do "lugar"... Aparentemente a liberdade de corpos serem apenas corpos, funcionais e saudáveis, é exclusivamente masculina. Mas isso é assunto pra outro post. 

O que eu gostaria de trazer hoje aqui como assunto, que venho pensando e discutindo nas minhas turmas desde o ano passado, é o quanto essa ditadura de padronização de beleza não nos atrapalha no objetivo de melhorar a nossa dança. Quantas vezes nos censuramos, seja em vídeo ou no espelho, não porque o movimento não está bom ou não sai, mas sim porque o nosso corpo tem algo que acreditamos ser inadequado e isso polui toda nossa visão a respeito de técnica e qualidade de movimento. 

Não vejo uma grande variedade de tipos físicos em evidência dentro do nicho do Fusion Bellydance, muito pelo contrário. Os padrões são sempre, e ao que me parece cada vez mais, eurocêntricos e "magrocêntricos". Será que não tá na hora da gente reeducar nosso olhar para ver beleza em outros tipos físicos na dança, em outros tons de pele, em outras construções de estética? 

Com a proliferação da dança restrita quase que exclusivamente às mídias sociais nos últimos dois anos, os algoritmos como sempre favorecem o capital. Favorecem a insegurança que é o que vende, e é o que mantêm em complexo de inferioridade. Imagina se todo mundo começa a deixar de ver problema estético em si mesmo? Como ficam as indústrias de cirurgia plástica, de cosméticos?

O que eu realmente me pergunto é o quanto de tempo e energia não gastamos em tentar mudar, ou nos sentirmos mal com o nosso próprio corpo em vez de apenas "usá-lo"para o que realmente queremos: dançar bem. Quanto a dança poderia ter evoluído tecnicamente se não fosse tão impregnada por esses padrões que nos escravizam, que escravizam nossos olhares, que influenciam o que assistimos, que tendenciosamente nos "educa" para o que é "bom. 

Desafio da próxima vez que assistirem suas bailarinas favoritas, que se questionem se ela representa um padrão de "capa da revista" e, se sim, buscar reeducar seu olhar para acomodar outras belezas, outros padrões, e com um pouco de sorte até, o seu próprio. A gente quer uma barriga negativa ou uma barriga que tem força e potência pra realizar seus movimentos de quadril e torso?


quinta-feira, 3 de março de 2022

Flow

 Passei um bom tempo pensando sobre o que escrever essa semana nesse cérebro pós-carnaval apocalíptico, e passaram várias idéias pela minha cabeça, algumas antigas, outras novas...

Aí me ocorreu uma coisa durante um flow de fusion que estava dando durante a aula... Justamente o quanto a gente se sai melhor em algumas coisas quando não pensamos demais! Pensar é fundamental, sem dúvida quanto a isso! rs 

Mas o overthinking pode realmente nos atrapalhar em vários momentos da nossa vida que exigem ação em vez de pensamento. O flow é uma dessas ocasiões. Não seria o flow a síntese do "deixar rolar", vir o que tiver de vir? Às vezes quando estamos tentando dançar uma música pra treinar uma (ou várias) técnicas, se ficamos muito fixadas no que a música faz, em quando vai mudar, não conseguimos deixar fluir o treino, não entramos no nosso corpo e não deixamos o movimento fluir... 

É claro que num cenário ideal, numa preparação para performance, a música vai guiar cada um dos nossos movimentos. Mas tem que ter essa hora de errar. Tem que ter o deixar o corpo fluir. Tem que ter o aprender a consertar um erro com o próximo movimento, sem deixar a bola cair. Essa é um habilidade fundamental de qualquer um que precisa subir num palco pra fazer qualquer coisa. E tantas vezes, não treinamos essa habilidade justamente por medo de cometer erros. Acontece que pra improvisar temos que nos abrir pra possibilidade de errar! Se for pra fazer apenas o previsto, melhor ir de coreografia né? Tem uma frase do Miles Davis sobre o improviso que eu gosto muito, que diz algo mais ou menos como "você acerta uma nota errada com a próxima que você faz", ou algo assim. É exatamente como me sinto ao abrir essa possibilidade para o erro no improviso livre: sim, tem coisas que saem erradas. Mas como você lida com o erro é mais importante do que o erro em si, é aí que a gente cresce. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A importância do alinhamento

 Se tem uma coisa que eu gostaria de ter sabido desde o primeiro dia que entrei numa sala de aula pra me movimentar, é sobre a importância do alinhamento correto e consciente. Tudo que fazemos relacionado ao movimento necessariamente passa por esse lugar. É claro que cada um tem características corporais específicas que permitem que sigamos mais ou menos os parâmetros do que é "ideal" em termos de alinhamento, mas como no fim todo corpo é composto das mesmas partes, por assim dizer, existem sim princípios universais aos quais temos que prestar atenção.

Seja nas posturas de yoga, no treino funcional, na dança ou no alongamento, o alinhamento correto vai permitir que você evolua dentro da técnica, melhore sua postura e sua flexibilidade progressivamente e o melhor, de forma completamente segura. Quantas vezes não excedemos um limite do corpo por escolher a amplitude em vez do alinhamento? Queremos ir láááááá longe no alongamento sem respeitar onde o corpo está agora, nesse momento. Na dança acontece a mesma coisa... às vezes queremos fazer um movimento bem grandão e esquecemos de sentir como o corpo responde àquilo, se realmente estamos preparadas fisicamente para ir na amplitude máxima.

Respeitar os princípios do alinhamento é algo que requer bastante atenção, estudo, consciência corporal e paciência, pois às vezes os resultados podem parecer demorar mais para vir . Mas vale muito a pena e os resultados sempre serão mais duradouros e sustentáveis,  pois assim estaremos sempre protegendo as articulações e garantindo uma vida "útil" longa e saudável para continuarmos nos movimentando sem lesões por muitos e muitos anos. Nas minhas aulas eu sempre reforço as diretrizes básicas para execução segura tanto no aquecimento e no alongamento quanto na dança, e na yoga também. Muitas vezes em sala de aula vejo pessoas que dançam há muito tempo e que ainda não tem essa consciência, e isso se reflete em qualquer movimento que a pessoa faz. Se reflete na maneira como nos movemos na vida, que dirá na dança!

Em resumo, seu progresso em qualquer modalidade de movimento com certeza será muito mais notável a longo prazo se você se movimentar atento ao alinhamento. Busque páginas na internet ou no Instagram que explicam o alinhamento correto nos alongamentos ou nas posturas de yoga. Spoiler: serão os mesmos dos movimentos que você faz para dançar! A vantagem é que como o corpo é um só e tem uma capacidade limitada de movimentos articulares, uma vez aprendido, você não esquece mais! Alinhe-se! ;)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Sobre inspiração e criatividade

Muitas vezes quando pensamos em inspiração e criatividade pensamos que esses são atributos sobre os quais não temos controle e que às vezes estão disponíveis para nós e às vezes não... E acredito que isso seja parcialmente verdade! Mas acredito também que é muito mais uma questão de reconhecer quando estamos nos sentindo criativos e inspirados, e pode ser em momentos "inconvenientes" ou não ter nada a ver com o momento que realmente nos dispomos, ou precisamos criar algo. 

Na verdade a inspiração pode vir a qualquer hora, e nem sempre ela vem do lugar esperado. 
Por exemplo, às vezes esperamos que ela venha de uma música, ou de assistir a uma dança da qual gostamos, mas precisamos estar receptivos para perceber quando ela vem de onde não esperamos. Às vezes uma foto, um padrão geométrico, uma cena na cidade, um cheiro ou um sabor. 
Aprender a reconhecer a inspiração em suas muitas formas ajuda na criação. E quando ela surgir, se possível, dê vazão a ela. Se não puder, anote a idéia e retome depois. 

As muitas facetas da vida nas quais operamos também recebem o nosso poder criativo o tempo inteiro. Resolvemos problemas, atuamos no plano material e manipulamos elementos diariamente. Sentir esses momentos de criação diária como uma outra forma de ser criativo ajuda a manter o fluxo das idéias em movimento. Enfim, me parece que a inspiração sempre vem quando menos esperamos, e estar atento no dia a dia para recebê-la me parece uma ótima forma de fazer com que ela continue vindo!

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

O analógico e a velocidade do tempo digital

 Já faz uns bons anos que tenho uma vitrola em casa. Toda vez que mexo na vitrola, é como adentrar uma outra zona de tempo. Os discos são grandes e frágeis, a agulha e o braço dela são delicados, cheios de fiozinhos que requerem o manuseio cuidadoso. Se o disco cair, pode arranhar ou até quebrar, e a brincadeira acaba ali. Quando acaba um lado, você não pode simplesmente ficar sentado e apertar o play pra continuar ouvindo música. Você precisa levantar e repetir o processo todo de novo, com o mesmo cuidado de antes. Às vezes o disco está sujo e precisa ser limpo antes de ouvir. Às vezes entra poeira na agulha e você tem que levantar pra limpar e continuar ouvindo. Ouvir discos em vinil na vitrola é um exercício de presença. Tudo que é analógico e requer um manuseio consciente, é um exercício de presença. 

Então me pergunto o quanto a dança contemporânea (na qual incluo os gêneros de dança que pratico, a dança do ventre e a fusão), não está impregnada pela urgência dos nossos tempos, a rapidez do digital. Para alcançar a velocidade dos algoritmos, é necessário produzir muito, rápido, para consumo imediato e igual rapidez no descarte. 

Sabemos que a pressa e a necessidade de produtividade nunca foram amigos da manifestação artística. O fazer artístico é um processo analógico, e não digital. Requer tempo e presença, atenção e cuidado. 

Observando grande parte de como a dança acontece nas mídias sociais, o que  importa é quantos movimentos acontecem a cada contagem. Quantos padrões de braços impressionantes e diferentes você consegue colocar em cada respiração. E a respiração? Não há tempo para que seja completa, profunda, abdominal. É melhor que ela seja rápida e superficial, assim conseguimos fazer mais e mais por minuto. A dança encarada pelos parâmetros digitais é exaustiva, não tem repouso. Ter que “mostrar serviço” em 1 minutinho de vídeo não permite que sejamos absorvidos por um momento em que o tempo fica suspenso, deixa de existir. Essa não seria afinal uma das funções da arte? Fazer o tempo parar...

Nesse contexto, que nós possamos nos permitir saborear o movimento, nos permitir o deleite de uma demorada e cuidadosa execução. Calma. Respirar, dando respiro também a quem assiste. A crise pela qual passamos agora é do ar. Será esse o motivo da nossa urgência? Respira fundo, profundo... Afinal, como me lembro de ouvir em uma das aulas da Sônia Mota: dançar é ficar em casa. 



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

um pequeno conto pessoal

Nunca tive corpo de bailarina...Não sou super magra, tenho pernas curtas e grossas, quadril grande... ahhh mas a dança! 

Desde que me conheço por gente eu amo a dança! 

Minha primeira experiência/tentativa de uma aula de balé falhou antes mesmo de começar. Eu, uma criança muito tímida, chegando na escola de balé já achei que não ia me dar bem ali, nem cheguei a fazer uma aula. Vieram então as aulas de jazz. Fiquei por uns 2 anos, e me apresentei no palco algumas vezes. Sempre adorei o palco, meio antagônico pra uma criança tímida, mas era o que era. Minha mãe me conta que eu não podia ver um palco que já ia correndo pra subir!

Com minha breve experiência no jazz, tinha criado uma coreografia com os movimentos milimetricamente copiados (os que eu conseguia) do clipe "Vogue" da Madonna pra apresentar com as coleguinhas no centro espírita que frequentava com a família. A música não lembro qual era, mas a coreografia era cheia de Vogue, e a Madonna chegou no centro espírita! A segunda coreografia que fiz pro centro já foi "em parceria" e me lembro do meu total desagrado de não ter autonomia nas escolhas de música, dos passos que iam entrar na coreografia... 9 anos e tão cheia de visões sobre o que eu queria ver no palco rsrs

Avançando alguns anos, com 21 encontro uma matéria de revista, ou jornal, não lembro, explicando sobre os benefícios da dança do ventre, e como era uma dança que podia começar com qualquer idade e tipo físico. Resolvi experimentar, no Clube Sírio Libanês da minha cidade. Me senti bem recebida pela professora, pelas colegas, me sentia pela primeira vez "adequada" em algum lugar que era relacionado ao movimento, e fui ficando. Sou muito agradecida por ter caído de paraquedas na aula da Jannah, que sempre me incentivou tanto. Talvez se tivesse ido parar em uma aula em que a dança não era levada tão a sério, não teria dado outra chance. A Jannah botava a gente pra ralar de verdade e eu tinha colegas incríveis que me inspiravam muito. Uma delas, a Lili Hanaah, é minha amiga até hoje, já dançamos até tribal juntas. Mas tinha a Iris que era norueguesa e ficava umas temporadas, a Samra, e tantas outras que não lembro o nome. Obrigada pela inspiração!

Quando conheci o tribal pela internet (nem Youtube tinha ainda!), alguns meses depois de começar na DV, foi como chegar em casa, de novo!

Os figurinos me chamavam, combinavam com as tatuagens que eu já tinha, dava pra usar o meu cabelo curto porque haviam tantos adornos na cabeça que nem dava pra notar o cabelo, que geralmente era preso. Os tons de cores eram mais do meu gosto, os tecidos e texturas, toda a estética, postura, os movimentos e a expressão me agradavam demais. Parecia que dava pra eu ser quem eu era ali, sem precisar fingir ser outra coisa. Era como algo saído de um sonho que eu nunca nem tinha sonhado. 

Além disso, havia uma comunidade internacional online, o Tribes.net onde todo mundo trocava idéias, compartilhava achados, dicas, músicas, e você estava ali em constante contato com uma comunidade com interesses afins e as suas dançarinas favoritas, tudo em um lugar só! Era maravilhoso e eu passava horas e horas ali absorvendo tudinho que eu podia de informação, já que aqui no Brasil não tinha esse estilo do jeitinho que eu gostava ainda. Lembro do meu marido, que na época era namorado, falando: "De novo tá nesse site laranja?". O layout da página era branco e laranja! 😆

Tudo isso falou muito próximo do meu coração, vindo de encontro com imagens e ideais que eu tinha na minha cabeça, algumas que nem sabia que tinha, e tudo se encaixou como uma luva. Nunca tinha sentido isso em relação a nada que fiz na minha vida. Era como finalmente "chegar em casa", já em idade adulta, e me encontrar com quem eu sonhava em ser no futuro. Dediquei muito do meu tempo para desvendar o que tornava essa dança tão especial aos meus olhos, quais eram os segredos por trás da estética, a contextualização da postura e dos movimentos e o que a levava a ser como era. Eu não queria simplesmente copiar o que eu via, eu queria entender o que estava por trás de tudo aquilo. E quanto mais eu descobri, mais eu me apaixonei. 

Justamente por acreditar tanto no potencial dessa dança como ferramenta de evolução e crescimento pessoal e comunitário, físico e mental, que estou há 15 anos me dedicando à  expansão desse estilo, na esperança de que outras pessoas o encontrem e se sintam em casa, como eu me senti há todos aqueles anos atrás. Foi o que me fez criar esse blog, os vídeos pro blog, todas as aulas teóricas e palestras que preparei e todos os shows que produzo, é tudo pra isso. Então puxa uma cadeira, e sejam bem-vindas! :D

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Estamos de volta! :)

Estamos de volta! Muita coisa mudou desde os últimos posts do blog, que foram por vídeo e em 2020… Ali o estilo já estava passando por sérias reformulações em relação ao nome, repertório, estética… e agora, 2 anos depois, uma pandemia ainda em curso e as mudanças ainda estão em pleno vapor, e sem data pra terminar. Acho importante que possamos andar pra frente e evoluir, mas sem deixar pra trás a história que já foi escrita. Às vezes, em nome de uma evolução, a gente quer deixar o passado pra trás, apagar tudo que aconteceu e olhar só “pra frente”. Mas sem atrás não existe a frente, e em se tratando de dança que, por natureza já é tão volátil, o tempo não é aliado! Se não fizermos um esforço pra deixar registrado o que passou, erros e acertos inclusos, fica difícil visualizarmos um futuro. Por essa razão, estou disponibilizando apenas aqui no blog, contextualizado, a coleção de vídeos do Divagações Tribais e Afins, gravados em 2020 poucos meses antes do início da pandemia.

Eles tratam das principais dúvidas que as pessoas têm sobre o estilo, resumindo algumas informações importantes de uma maneira mais prática e leve. A idéia inicial era de 5 temas, esses que estão a seguir, e depois eu deixaria rolar pra ver se sairiam mais temas, mas aí... veio março de 2020 e a vida de todo mundo virou de ponta cabeça!

Uma mudança depois, poeira baixa, vacinas no braço, e resolvi retomar o blog exatamente de onde parei: com essa série de vídeos informativos sobre o estilo que popularmente conhecemos por Tribal Fusion. No próximo post, conto um pouquinho mais pra vocês sobre o motivo do blog, desses vídeos, e de tudo o mais que eu faço! Se cuidem, tomem vacina, não votem no bozo e até mais! ;)